Mais de 2,2 milhões de estelionatos foram registrados no Brasil em 2025. Para o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, os golpes digitais consolidaram-se como o principal crime patrimonial do país
Durante muito tempo, a percepção de insegurança do brasileiro esteve associada principalmente à violência das ruas. O medo de ser assaltado na saída do trabalho, de ter o celular roubado no transporte público ou de sofrer uma invasão domiciliar moldou a visão de gerações sobre o que significava conviver com a criminalidade. Os dados mais recentes da segurança pública brasileira, entretanto, revelam uma transformação silenciosa: cada vez mais o crime chega por uma tela.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostra que o Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025. Desse total, 346.753 foram classificadas como estelionato por meio eletrônico, um crescimento de 20,6% em relação ao ano anterior. Os números ajudam a explicar por que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que os estelionatos se consolidaram como o principal crime patrimonial do país.
A expressão “o crime que compensa” foi utilizada pelo Anuário para discutir o fenômeno dos estelionatos no Brasil. Neste artigo, utilizamos essa reflexão para analisar o avanço dos golpes digitais, uma das modalidades que mais crescem dentro desse universo.
O crime que compensa
A escolha dessa expressão pelo Anuário não parece exagerada.
Apesar dos 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, o sistema de justiça contabilizou apenas 63.771 processos e 4.819 prisões relacionadas a esse conjunto de delitos. Mais impressionante ainda é a conclusão destacada pelo próprio estudo: mais de 97% dos casos não chegam ao Judiciário.
Investigações exigem tempo, recursos e produção de provas. Ainda assim, a distância entre milhões de registros e um número relativamente pequeno de processos e prisões levanta uma questão inevitável: qual é a percepção de risco para quem pratica esse tipo de crime?
Quando a possibilidade de punição é percebida como baixa e o potencial de lucro continua elevado, cria-se um ambiente favorável para a expansão das fraudes. Talvez seja justamente por isso que os golpes continuem crescendo ano após ano, mesmo diante de campanhas de conscientização e do aumento da familiaridade dos brasileiros com os riscos do ambiente digital.
A migração do crime para o ambiente digital
A digitalização trouxe benefícios inegáveis para a sociedade. Compramos produtos sem sair de casa, realizamos transferências instantâneas, contratamos serviços online e resolvemos uma infinidade de tarefas pelo celular.
Mas a mesma infraestrutura que tornou a vida mais prática também abriu novas oportunidades para criminosos.
Como funcionam os golpes digitais mais comuns?
Hoje, um golpe pode começar com um anúncio aparentemente legítimo, uma mensagem enviada por aplicativo, um perfil falso em rede social ou um site criado para transmitir confiança. Não existe qualquer contato presencial entre criminoso e vítima. Ainda assim, os prejuízos financeiros podem ser significativos.
Por que as fraudes online crescem tão rapidamente?
No ambiente digital, um único golpe pode atingir centenas ou milhares de pessoas simultaneamente. Um anúncio pode alcançar consumidores em diferentes estados. Uma mensagem pode ser replicada em massa em poucos segundos. Uma estrutura fraudulenta pode operar durante dias ou semanas antes de chamar a atenção das autoridades.
O avanço do estelionato eletrônico no Brasil
O medo cresce junto com os golpes. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, 83,2% da população afirma ter medo de ser vítima de fraude pela internet ou pelo celular.
O dado ajuda a compreender por que tantas pessoas passaram a desconfiar de mensagens recebidas por aplicativos, promoções aparentemente vantajosas e ofertas encontradas na internet.
Essa desconfiança não é fruto de paranoia. Ela reflete uma experiência cada vez mais comum. Relatos de consumidores que enfrentam problemas com falsas ofertas, perfis fraudulentos, anúncios enganosos e esquemas envolvendo meios de pagamento digitais tornaram-se parte do cotidiano brasileiro.
O que antes era percebido como um risco eventual passou a integrar a rotina de milhões de pessoas.
Os números do Anuário deixam claro que os golpes digitais deixaram de ser uma ameaça emergente. Eles já fazem parte da realidade brasileira.
Quem deve combater os golpes digitais?
O desafio não diz respeito apenas às forças de segurança. Ele envolve também plataformas digitais, empresas de tecnologia, instituições financeiras, órgãos de defesa do consumidor e os próprios usuários da internet.
A transformação digital trouxe enormes benefícios para a sociedade. O problema é que os mecanismos de prevenção, fiscalização e investigação parecem ter mais dificuldade para acompanhar a velocidade com que os criminosos se adaptam.
Quando mais de 2,2 milhões de estelionatos são registrados em um único ano, quando os golpes eletrônicos continuam crescendo acima da média e quando mais de 97% dos casos não chegam ao Judiciário, ignorar o problema deixa de ser uma opção.
Talvez a principal contribuição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 seja justamente mostrar que os golpes digitais não são um problema periférico. Eles se tornaram um dos principais desafios da segurança pública brasileira.
E enquanto os criminosos continuarem enxergando grandes oportunidades e baixo risco, o título deste artigo continuará atual: estamos diante de um crime que ainda compensa.
FONTE: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026
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