Se a guerra dele é contra as drogas, por que ele perdoou o homem que criou uma das maiores plataformas de venda de drogas do mundo?
A recente decisão do governo Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas foi recebida com entusiasmo por muitos brasileiros.
Nas redes sociais, não faltam comentários apresentando Trump como um líder disposto a fazer o que os governantes brasileiros não fizeram: enfrentar o crime organizado com firmeza.
Mas antes de transformar o presidente americano em um herói da segurança pública brasileira, vale responder uma pergunta simples:
Se a guerra de Trump é contra as drogas, por que ele concedeu perdão presidencial ao fundador do Silk Road?
A resposta ajuda a compreender melhor quais interesses realmente orientam as decisões da política americana.
O que foi o Silk Road?
O Silk Road foi um mercado clandestino que operava na chamada dark web.
A plataforma permitia que usuários de diversos países comprassem e vendessem drogas ilícitas utilizando criptomoedas. Durante anos, o site foi apontado pelas autoridades americanas como um dos maiores facilitadores do comércio internacional de entorpecentes pela internet.
O fundador da plataforma foi Ross Ulbricht, condenado pela Justiça dos Estados Unidos após uma investigação conduzida pelo FBI.
Segundo as autoridades americanas, milhões de dólares em transações ilegais passaram pelo sistema criado por Ulbricht.
Quem era Ross Ulbricht?
Ross Ulbricht não foi condenado por consumir drogas nem por pequenos delitos relacionados a entorpecentes.
Ele foi considerado responsável pela criação e administração da infraestrutura que permitiu a realização de milhares de negociações envolvendo drogas ilegais.
Por esse motivo, o caso se tornou um símbolo da repressão americana ao narcotráfico digital.
Durante anos, Ulbricht permaneceu preso cumprindo pena severa, até receber um perdão presidencial concedido por Donald Trump.
Por que Trump perdoou o fundador do Silk Road?
Os defensores da medida costumam apresentar três argumentos principais:
- A pena teria sido excessivamente dura;
- Ulbricht não vendia drogas diretamente;
- O caso envolveria questões relacionadas à liberdade individual e ao excesso de poder estatal.
No entanto, existe outro aspecto frequentemente ignorado.
O perdão de Ulbricht era uma reivindicação antiga de grupos libertários e de parte da comunidade ligada às criptomoedas, setores que ofereceram apoio político importante a Trump.
Isso não prova qualquer simpatia de Trump pelo tráfico de drogas.
Mas demonstra algo importante:
As decisões políticas raramente são tomadas apenas por princípios morais abstratos.
Elas normalmente envolvem interesses políticos, eleitorais e estratégicos.
O que essa contradição revela?
A contradição é simples.
Quando o assunto envolve PCC e Comando Vermelho, o discurso é de combate implacável.
Quando envolve Ross Ulbricht, responsável pela criação de uma das maiores plataformas de venda de drogas da história da internet, o discurso passa a admitir exceções.
Isso não significa que PCC e Comando Vermelho não sejam organizações criminosas perigosas.
São.
Também não significa que o Brasil tenha conseguido enfrentar adequadamente o avanço dessas facções.
Não conseguiu.
A questão é outra:
Se o combate às drogas é uma questão de princípio absoluto, por que abrir exceções tão significativas?
Trump quer ajudar o Brasil?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas.
Muitos brasileiros enxergam a classificação do PCC e do Comando Vermelho como uma espécie de ajuda americana ao Brasil.
Mas a história da política internacional sugere cautela com esse tipo de interpretação.
Países não costumam formular suas políticas externas para beneficiar outras nações.
Eles agem para proteger seus próprios interesses.
Isso vale para os Estados Unidos.
Vale para a China.
Vale para a Rússia.
E vale para qualquer potência.
A pergunta correta não é se a medida pode trazer benefícios ao Brasil.
A pergunta correta é:
Quais interesses americanos são atendidos por essa decisão?
O caso Silk Road enfraquece a narrativa de salvador?
Para quem acredita que Trump está travando uma cruzada moral contra o tráfico de drogas, o caso Silk Road representa um problema difícil de ignorar.
Afinal, o mesmo presidente que agora adota uma postura duríssima contra organizações criminosas estrangeiras decidiu conceder perdão ao homem que criou uma plataforma usada para comercializar drogas em escala global.
Isso não transforma Trump em aliado do narcotráfico.
Mas também não sustenta a ideia de que suas decisões sejam motivadas exclusivamente pelo combate às drogas.
O que os brasileiros deveriam considerar?
O combate ao PCC e ao Comando Vermelho é necessário.
A incapacidade do Estado brasileiro de controlar o crescimento dessas organizações é um problema real.
Mas uma análise séria exige evitar ilusões.
Donald Trump não é presidente do Brasil.
Seu compromisso institucional é com os interesses dos Estados Unidos.
Por isso, antes de celebrar qualquer medida americana como um gesto de salvação nacional, vale responder à pergunta que continua sem uma explicação convincente:
Se a guerra dele é contra as drogas, por que ele perdoou o homem que criou uma das maiores plataformas de venda de drogas do mundo?
Para entender melhor o caso Ross Ulbricht e o perdão presidencial concedido por Donald Trump, leia a análise publicada pelo Blogueiros do Brasil:
Para entender melhor o caso Ross Ulbricht e o perdão presidencial concedido por Donald Trump, leia a análise publicada pelo Blogueiros do Brasil:
O Polêmico Perdão de Trump ao Fundador do Site de Drogas Silk Road
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