Por que nos mobilizamos tanto com pautas ideológicas e tão pouco com os problemas reais do povo?
Há algum tempo, o @pauloeneas tem apontado um defeito sério da direita brasileira: nossa tendência de nos concentrarmos excessivamente em pautas ideológicas e culturais, enquanto damos pouca atenção aos problemas concretos e cotidianos que mais incomodam o brasileiro comum.
Infelizmente, é difícil discordar dele.
Vemos mobilização intensa contra o ativismo judicial, contra a censura, contra o STF e em defesa da liberdade de expressão. Essas lutas são importantes. Porém, quando o assunto são os problemas que sangram o bolso e o dia a dia do cidadão, o engajamento cai drasticamente.
Exemplos não faltam:
- Fraudes digitais generalizadas: Anúncios golpistas no Instagram e Facebook vendendo produtos que nunca chegam. O Congresso quase não se mexe. O PL 3451/2025, de Amom Mandel, foi desidratado na tramitação.
- Fidelização abusiva de operadoras: Como o caso da TIM Ultrafibra, onde o consumidor é preso em contratos intermináveis com péssimo serviço. É difícil imaginar que as operadoras se comportariam da mesma forma num ambiente de competição real.
- Concentração de mercado em setores essenciais: A Ambev domina grande parte do mercado de cerveja, a J&F/JBS tem enorme poder no setor de carnes, e o Mercado Livre caminha para monopolizar o e-commerce brasileiro. No caso do Mercado Livre, o uso do Fulfillment, o acesso aos dados dos vendedores e a concorrência desleal contra os próprios lojistas que usam a plataforma são temas graves que merecem mais atenção.
- Planos de saúde: O brasileiro paga duas vezes pela saúde — primeiro via impostos pesados para o SUS e depois por planos privados caros. Pouca iniciativa concreta para romper esse ciclo.
Isso revela uma contradição grave: a direita fala muito em “menos Estado”, mas na prática contribui para manter ou até aumentar o tamanho do Estado, ao não confrontar com vigor monopólios, oligopólios e privilégios regulatórios que sufocam a concorrência real.
Enquanto isso, as big techs lucram com anúncios de golpistas, operadoras e grandes plataformas aumentam seu domínio, e o cidadão comum segue desprotegido.
Essa omissão não é apenas um erro estratégico. É entregar espaço para a esquerda se posicionar como a única que “se importa com o povo”.
Uma direita madura precisa equilibrar: ser firme nos valores conservadores e na defesa da liberdade, mas também lutar contra monopólios e oligopólios, por mais concorrência real e por soluções práticas para os problemas do dia a dia do brasileiro.
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