A imagem de livros sendo picotados chocou a internet, mas essa prática está longe de ser uma novidade
Nas últimas semanas, vídeos mostrando pilhas de livros sendo cortados, desmontados e transformados em folhas soltas viralizaram nas redes sociais. Segundo diversas publicações, empresas estariam adquirindo milhares de exemplares para alimentar sistemas de inteligência artificial, descartando os livros após a digitalização.
As imagens despertaram indignação imediata. Para muitos, tratava-se de um símbolo da substituição da cultura pelo algoritmo: livros sendo literalmente destruídos para treinar máquinas capazes de produzir textos em segundos.
A discussão ganhou força graças ao excelente vídeo publicado pela criadora de conteúdo Tatiana Feltrin, que reuniu reportagens e artigos sobre o tema para demonstrar que a destruição física de livros durante processos de digitalização está longe de ser uma prática inédita. O vídeo também chama atenção para outro aspecto importante: muito antes de a inteligência artificial ocupar as manchetes, editoras já enfrentavam um dilema semelhante ao lidar com grandes estoques de livros encalhados.
Este artigo foi inspirado na análise apresentada por Tatiana Feltrin e nas fontes jornalísticas por ela recomendadas. Nosso objetivo, porém, não é reproduzir seu conteúdo, mas ampliar a discussão, contextualizando um tema que costuma ser tratado apenas pelo impacto das imagens.
Quando um vídeo conta apenas parte da história
É difícil permanecer indiferente ao assistir a um livro sendo destruído.
Durante séculos, o livro físico representou muito mais do que um objeto comercial. Ele simboliza conhecimento, memória, cultura e preservação da história. Não por acaso, cenas de bibliotecas queimadas ou livros rasgados costumam provocar forte reação emocional.
Os vídeos que circularam recentemente exploram exatamente essa percepção. Ao mostrar exemplares sendo cortados por máquinas industriais, a impressão transmitida é a de que empresas de inteligência artificial estariam promovendo um ataque deliberado aos livros impressos.
No entanto, uma imagem, por mais impactante que seja, nem sempre revela todo o contexto.
É verdade que algumas empresas vêm adquirindo livros físicos para digitalização destrutiva.
O que raramente aparece nas publicações que viralizaram é que esse procedimento não nasceu com a inteligência artificial.
Muito antes dos atuais modelos de IA, bibliotecas, universidades, empresas especializadas em digitalização e até grandes projetos de preservação digital já utilizavam métodos semelhantes para converter acervos físicos em arquivos digitais. A diferença é que, naquela época, o assunto despertava muito menos atenção do público.
Esse contexto histórico não elimina as discussões atuais sobre direitos autorais ou sobre o uso de obras protegidas para treinamento de sistemas de inteligência artificial. Pelo contrário: ajuda a separar debates diferentes que frequentemente acabam sendo misturados.
E essa distinção é essencial para compreender o que realmente está em jogo.
Um debate muito mais antigo do que parece
Quando a polêmica explodiu nas redes sociais, muitos tiveram a impressão de estar diante de um fenômeno completamente novo. No entanto, basta olhar para o mercado editorial dos últimos vinte anos para perceber que a destruição de livros físicos já fazia parte de outras discussões, muito antes da popularização da inteligência artificial.
Editoras, distribuidoras e livrarias convivem há décadas com um problema pouco conhecido do grande público: o destino dos livros que não encontram compradores.
É justamente aí que a história começa a tomar um rumo inesperado.
A digitalização destrutiva não nasceu com a inteligência artificial
Embora os vídeos recentes deem a impressão de que a destruição de livros seja uma consequência direta da inteligência artificial, a realidade é bem diferente.
Há muitos anos, empresas especializadas em digitalização utilizam scanners industriais capazes de converter milhares de páginas em arquivos digitais em poucas horas.
O procedimento é relativamente simples. Primeiro, a lombada é removida para separar todas as páginas. Em seguida, as folhas passam por alimentadores automáticos que digitalizam uma a uma, em alta velocidade. Depois desse processo, o livro deixa de existir como objeto físico.
Essa técnica ficou conhecida como digitalização destrutiva.
À primeira vista, ela pode parecer um desperdício. No entanto, para determinados projetos, representa a única alternativa economicamente viável. Digitalizar manualmente milhares de livros, preservando cada exemplar, exige equipamentos mais sofisticados, operadores especializados e muito mais tempo, tornando o processo significativamente mais caro.
Isso não significa que todo projeto de digitalização destrua livros. Bibliotecas, museus e instituições responsáveis pela preservação de obras raras utilizam equipamentos capazes de fotografar as páginas sem danificar o volume. Mas esses scanners são lentos, caros e destinados a acervos cujo valor histórico justifica esse cuidado.
Já quando o objetivo é converter rapidamente milhares de exemplares comuns em arquivos digitais, a lógica costuma ser outra.
Antes da IA, já existia o Google Books
Se hoje a inteligência artificial ocupa o centro do debate, no início dos anos 2000 quem despertava discussões semelhantes era o Google.
Com o projeto Google Books, a empresa iniciou uma gigantesca iniciativa para digitalizar milhões de obras pertencentes a bibliotecas de diversos países. O objetivo era criar um índice pesquisável do conhecimento publicado, permitindo localizar livros e trechos específicos por meio de buscas na internet.
O projeto gerou debates intensos sobre direitos autorais, uso de obras protegidas e limites da digitalização em larga escala. Embora muitas bibliotecas utilizassem métodos de preservação que não exigiam destruir exemplares, empresas contratadas para digitalização comercial também recorriam à separação das páginas sempre que isso representava maior eficiência operacional.
Em outras palavras, a ideia de desmontar livros para produzir versões digitais não surgiu com os atuais modelos de inteligência artificial. Ela já fazia parte da infraestrutura de digitalização em larga escala muito antes de ferramentas como ChatGPT, Gemini ou Claude existirem.
Isso ajuda a colocar a discussão em perspectiva. A novidade não está propriamente na técnica empregada para digitalizar livros, mas na finalidade que esses arquivos digitais passaram a ter.
Quando o problema não era digitalizar, mas armazenar
Existe, porém, uma história ainda menos conhecida.
Muito antes de empresas de tecnologia comprarem livros para digitalização, editoras brasileiras já enfrentavam um problema completamente diferente: o excesso de exemplares que nunca seriam vendidos.
Sempre que um livro é publicado, a editora precisa estimar quantos exemplares serão necessários para atender à demanda. Se imprimir poucos, corre o risco de perder vendas. Se imprimir demais, termina com milhares de livros ocupando espaço em depósitos durante anos.
À medida que novos lançamentos chegam ao mercado, esses estoques passam a representar um custo crescente. Aluguel de galpões, seguros, controle de estoque e movimentação logística tornam-se despesas permanentes, mesmo quando praticamente não há mais compradores interessados.
Foi justamente esse dilema que ganhou enorme repercussão em 2016, quando veio a público a notícia de que a editora Cosac Naify estudava o destino de seu estoque remanescente após encerrar suas atividades.
As imagens de livros destinados à reciclagem causaram forte indignação. Nas redes sociais, milhares de pessoas perguntavam a mesma coisa:
“Por que simplesmente não doar todos esses livros?”
A pergunta parecia óbvia.
A resposta, porém, era muito mais complexa do que imaginava a maioria das pessoas.
O caso Cosac Naify: por que doar nem sempre é simples?
Quando a Cosac Naify anunciou o encerramento de suas atividades, em 2015, o mercado editorial brasileiro perdeu uma de suas editoras mais respeitadas. Reconhecida pela qualidade gráfica de suas publicações e pelo cuidado editorial, a empresa deixou um enorme estoque de livros que já não encontravam espaço no mercado.
A notícia de que parte desse acervo poderia ser destinada à reciclagem provocou forte reação pública. Autores, leitores e jornalistas passaram a defender que todos os exemplares fossem doados a escolas, bibliotecas e instituições culturais.
À primeira vista, a proposta parecia irrefutável. Afinal, por que destruir livros se tantas pessoas gostariam de recebê-los?
A resposta foi apresentada de forma bastante didática pelo editor Henrique Farinha, em artigo publicado pelo PublishNews. Em vez de discutir a questão sob um ponto de vista emocional, ele analisou os custos envolvidos em uma operação dessa magnitude.
Segundo Farinha, doar livros não significa simplesmente colocá-los em caixas e enviá-los aos interessados. Antes de qualquer remessa, há uma longa cadeia de despesas: armazenagem, separação dos exemplares, conferência, embalagem, transporte e distribuição. Além disso, muitos contratos editoriais limitam a quantidade de exemplares que pode ser doada sem gerar pagamento adicional de direitos autorais.
Outro problema é a logística.
Quem recebe milhares de livros também precisa ter espaço para armazená-los. Muitas instituições não conseguem absorver grandes quantidades de uma única vez e preferem receber pequenos lotes ao longo do tempo. Isso significa que a editora continua arcando com os custos de armazenamento, justamente quando já enfrenta dificuldades financeiras.
Há ainda o custo do frete.
Enviar centenas ou milhares de exemplares para escolas, bibliotecas ou organizações espalhadas pelo país pode representar uma despesa superior ao próprio valor comercial dos livros.
É justamente esse aspecto que costuma desaparecer nas discussões travadas nas redes sociais. A doação parece gratuita apenas para quem recebe. Para quem doa, ela envolve uma operação logística complexa e, muitas vezes, extremamente cara.
Isso não significa que editoras não realizem doações. Pelo contrário. Diversas empresas do setor mantêm programas permanentes de distribuição de livros para escolas, bibliotecas e projetos sociais. O ponto levantado por Henrique Farinha é outro: transformar um estoque de dezenas ou centenas de milhares de exemplares em uma gigantesca ação beneficente exige recursos financeiros, estrutura operacional e tempo — três elementos que normalmente faltam justamente quando uma editora encerra suas atividades.
A destruição de livros não começou com a Cosac Naify
O caso da Cosac Naify ganhou enorme repercussão, mas estava longe de ser inédito.
Seis anos antes, em 2010, a Ediouro enfrentou uma crise semelhante. Reportagens da época revelaram que a editora havia orientado livrarias a retirar as capas e as fichas catalográficas de determinados livros encalhados, descartando o restante dos exemplares para reduzir custos de armazenagem e devolução.
A reação foi imediata.
Escritores, leitores e profissionais do mercado editorial criticaram duramente a medida. Diante da repercussão negativa, a empresa voltou atrás e anunciou que buscaria alternativas para o destino daquele material.
O episódio demonstra que o dilema dos estoques excedentes acompanha o mercado editorial há décadas. Muito antes de qualquer debate sobre inteligência artificial, editoras já precisavam decidir o que fazer com livros que dificilmente voltariam a ser comercializados.
O que realmente mudou com a inteligência artificial
Os vídeos que viralizaram recentemente mostram livros sendo desmontados para digitalização. A cena é praticamente a mesma observada em diversos processos industriais das últimas décadas.
A diferença está no destino dos arquivos digitais produzidos.
Antes, a digitalização tinha como principal objetivo preservar obras, facilitar consultas, criar acervos eletrônicos ou disponibilizar livros em formato digital para leitura.
Agora, parte desse material pode ser utilizada no treinamento de sistemas de inteligência artificial capazes de analisar padrões linguísticos, responder perguntas, resumir textos e gerar novos conteúdos.
É justamente nesse ponto que começa a discussão contemporânea.
A técnica empregada para digitalizar livros pode ser antiga. Já o uso dessas obras para alimentar modelos comerciais de IA levanta questões inéditas envolvendo direitos autorais, remuneração de autores, licenciamento e limites do uso de conteúdo protegido.
Misturar essas duas discussões — a destruição física do exemplar e o uso intelectual de seu conteúdo — acaba produzindo mais calor do que esclarecimento.
São debates relacionados, mas não são a mesma coisa.
O verdadeiro debate não é sobre papel
Depois de analisar os fatos, fica mais fácil compreender por que a polêmica ganhou tanta repercussão.
As imagens de livros sendo cortados realmente causam desconforto. Afinal, poucas coisas representam tão bem a produção do conhecimento quanto um livro impresso. Vê-lo transformado em folhas soltas ou aparas de papel desperta a sensação de que algo valioso está sendo perdido.
Mas essa reação emocional não pode substituir a análise dos fatos.
Como vimos, a destruição física de livros ocorre há décadas em diferentes contextos. Ela esteve presente em projetos de digitalização em larga escala, em editoras que precisaram lidar com estoques encalhados e até em iniciativas de preservação digital que privilegiaram a eficiência operacional em detrimento da conservação do exemplar físico.
A inteligência artificial não inventou essa prática.
O que ela fez foi colocá-la novamente sob os holofotes.
A pergunta que realmente importa
Se a destruição de livros não é novidade, por que o assunto mobilizou tanta gente agora?
Porque o centro da discussão deixou de ser o papel e passou a ser o conteúdo.
Quando uma empresa compra um livro, ela adquire aquele exemplar físico. Já a utilização da obra para treinar modelos comerciais de inteligência artificial abre uma série de questões jurídicas, éticas e econômicas que ainda estão sendo discutidas em diversos países.
Autores perguntam se deveriam ser remunerados.
Editoras questionam quais usos são permitidos pelas leis de direitos autorais.
Empresas de tecnologia defendem interpretações diferentes sobre o alcance do chamado uso legítimo (fair use) ou das exceções previstas nas legislações de cada país.
Essas discussões são legítimas e estão longe de chegar a um consenso.
No entanto, elas não devem ser confundidas com a técnica utilizada para digitalizar um livro.
Uma coisa é discutir o destino físico de um exemplar adquirido legalmente.
Outra, bastante diferente, é debater como o conteúdo dessa obra poderá ser utilizado após a digitalização.
Misturar essas questões apenas dificulta a compreensão do problema.
Mais contexto, menos indignação
Vivemos uma época em que vídeos de poucos segundos frequentemente moldam a opinião pública antes mesmo que o contexto seja conhecido.
Foi exatamente isso que ocorreu com a recente onda de publicações mostrando livros sendo destruídos para digitalização. As imagens eram reais. A indignação também.
O que faltava era contexto.
Foi justamente esse contexto que a escritora, tradutora e criadora de conteúdo Tatiana Feltrin trouxe ao seu público ao reunir reportagens, documentos e análises históricas sobre o assunto. Em vez de negar a existência da prática, ela mostrou que ela antecede em muitos anos a popularização da inteligência artificial e que o mercado editorial convive com esse tipo de dilema há décadas.
Ao consultar as mesmas fontes utilizadas por ela, percebemos que a realidade é mais complexa do que sugerem as publicações virais.
Isso não significa que empresas de inteligência artificial estejam acima de críticas. Muito pelo contrário. O treinamento de modelos com obras protegidas por direitos autorais continuará sendo objeto de intensos debates nos próximos anos e provavelmente produzirá importantes decisões judiciais.
Mas, para que esse debate seja produtivo, é preciso separar emoção de informação.
As imagens podem despertar indignação.
Os fatos, por sua vez, ajudam a compreender por que elas existem.
E, muitas vezes, compreender é o primeiro passo para discutir um problema de forma séria, sem simplificações e sem cair na armadilha das conclusões precipitadas.
O vídeo da Tatiana Feltrin:
A destruição de livros por IAs & O que é um livro raro?
Links sugeridos por Tatiana Feltrin:
Matéria sobre a destruição de livros por empresas de IA
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