BlogDay: ascensão, queda e resistência dos blogs

BlogDay: ascensão, queda e resistência dos blogs

Blogosfera Internet

 

 

Da Web aberta às redes sociais e à inteligência artificial, os blogs perderam protagonismo — mas talvez tenham se tornado ainda mais importantes

 

Houve um tempo em que ter presença na internet significava ter um endereço.

Não uma conta no Facebook, um perfil no Instagram ou um canal em alguma plataforma. Um endereço: um domínio, uma página, um pequeno pedaço da Web que alguém construía, organizava e alimentava como bem entendia.

Os blogs foram uma das maiores expressões dessa internet.

Hoje parecem pertencer a outra época. A palavra “blogueiro”, que já simbolizou uma nova geração de produtores independentes de conteúdo, foi em grande parte substituída por “criador de conteúdo” ou “influenciador”. A conversa pública migrou para redes sociais, vídeos, podcasts e, mais recentemente, para sistemas de inteligência artificial.

Mas isso significa que os blogs morreram?

Talvez tenhamos confundido perda de protagonismo com desaparecimento.

 

Antes do blog existir, já havia blogs

Determinar qual foi o “primeiro blog” é mais complicado do que parece. Páginas pessoais atualizadas regularmente e coleções de links comentados existiam antes de alguém inventar uma palavra para aquilo.

O marco linguístico é mais claro. Em 17 de dezembro de 1997, Jorn Barger passou a utilizar a palavra weblog em seu site Robot Wisdom para descrever sua atividade de registrar e selecionar aquilo que encontrava na Web.

O termo juntava duas palavras inglesas: web, a Web ou rede, e log, que pode significar registro, diário ou registro de atividades. Weblog poderia ser entendido, portanto, como “registro da Web” ou, de maneira mais livre, “diário da Web”.

Dois anos depois aconteceu uma daquelas pequenas brincadeiras que acabam entrando para a história. Em 1999, Peter Merholz passou a separar weblog em seu site como “we blog” — literalmente, “nós blogamos”. A brincadeira ajudou a transformar blog em uma palavra independente.

A abreviação venceu.

Em 23 de agosto de 1999, a Pyra Labs lançou o Blogger, tornando muito mais simples uma atividade que até então exigia maior conhecimento técnico. Poucos anos depois, em 27 de maio de 2003, surgiu a primeira versão pública do WordPress, desenvolvida a partir do b2/cafelog por Matt Mullenweg e Mike Little.

Outro elemento foi fundamental para aquela internet: o RSS. Desenvolvido em diferentes versões a partir do fim dos anos 1990, ele permitia acompanhar atualizações de dezenas ou centenas de sites em leitores de feeds.

Na prática, havia algo extraordinário nisso:

você escolhia quais sites queria acompanhar.

Não era necessário que um algoritmo decidisse quais publicações mereciam aparecer diante de você.

 

E então surgiu o BlogDay

Foi nesse ambiente que apareceu, em 2005, o BlogDay.

A iniciativa é atribuída ao israelense Nir Ofir. A escolha de 31 de agosto surgiu da semelhança visual entre 3108 e a palavra “Blog”. A proposta era que, naquele dia, cada blogueiro recomendasse cinco blogs diferentes daqueles que habitualmente frequentava, preferencialmente de outros países, culturas ou áreas de interesse.

Vista hoje, a ideia pode parecer apenas uma tradição simpática da antiga blogosfera. Mas ela revela uma característica fundamental daquela internet:

os blogs levavam leitores para outros blogs.

O link não era encarado necessariamente como perda de audiência. Era parte da arquitetura da própria Web.

 

A época das pequenas propriedades digitais

Blogrolls, hyperlinks, comentários, trackbacks e RSS ajudavam a formar uma rede de produtores independentes.

Um blogueiro podia escrever para algumas dezenas de pessoas; outro, para milhões. Mas cada um ocupava seu próprio espaço.

E existe uma diferença entre aquela lógica e a internet que usamos hoje que acabamos esquecendo:

Nas redes sociais, você tem uma conta. Em um blog, você tem um endereço.

Evidentemente, nenhuma propriedade digital é absoluta. Domínios dependem de registros, sites precisam de hospedagem e toda infraestrutura depende de terceiros.

Mas um site instalado em hospedagem própria pode ser transferido. Seu banco de dados pode ser copiado. Seus arquivos podem ser preservados. Seu domínio pode apontar para outro servidor.

Sua presença digital não precisa desaparecer junto com uma determinada plataforma.

Essa diferença se tornaria muito mais importante nos anos seguintes.

 

Quando chegaram os grandes feudos digitais

Facebook, YouTube, Twitter, Instagram e posteriormente TikTok mudaram profundamente a maneira como as pessoas descobrem, produzem e consomem conteúdo.

Os blogs não simplesmente perderam essa disputa porque fossem tecnologicamente inferiores.

As redes sociais fizeram uma proposta irresistível:

pare de construir sua própria praça. Venha para a nossa. Todo mundo já está aqui.

Era mais fácil publicar. Mais fácil encontrar pessoas. Mais fácil compartilhar fotografias e vídeos. Mais fácil conversar. E, principalmente, havia uma promessa permanente de audiência.

Milhões aceitaram.

Depois vieram bilhões.

A Web formada por incontáveis pequenos espaços independentes começou a dividir atenção com gigantescos territórios digitais controlados por poucas empresas.

 

Senhores feudais e vassalos digitais

A comparação com o feudalismo é uma metáfora, não uma equivalência histórica. O sistema feudal real era muito mais complexo.

Feita essa ressalva, a imagem ajuda a compreender uma característica fundamental da internet contemporânea.

Nas grandes plataformas, cultivamos terras alheias.

Produzimos o conteúdo. Construímos a audiência. Passamos anos acumulando seguidores. Alimentamos diariamente o sistema com textos, fotografias, vídeos, comentários e relacionamentos.

Mas o terreno pertence ao senhor do feudo.

Ele estabelece as regras.

Ele modifica o algoritmo.

Ele decide o que terá maior ou menor alcance.

Ele determina quais formatos serão privilegiados.

E pode, em último caso, retirar de alguém o direito de continuar ocupando aquele espaço.

Isso produz uma situação curiosa: uma pessoa pode possuir um milhão de seguidores sem possuir o caminho para chegar até eles.

São seguidores dentro de uma plataforma. A relação entre autor e público é intermediada pelo proprietário daquele território.

O blog nasceu de outra concepção.

Se a internet das plataformas lembra grandes feudos, a primeira blogosfera parecia uma multidão de pequenas propriedades digitais ligadas por estradas chamadas hyperlinks.

Não havia um único porteiro decidindo quais dessas estradas deveriam aparecer no feed.

 

A ironia: nós ajudamos a construir os feudos

Seria confortável transformar essa história numa narrativa de grandes corporações perversas contra usuários indefesos.

Mas seria incompleta.

Nós escolhemos as plataformas porque elas ofereciam vantagens reais.

O Facebook nos entregou as pessoas.

O Twitter nos entregou a conversa em tempo real.

O Instagram nos entregou imagens e descoberta.

O YouTube transformou qualquer pessoa em potencial emissora de vídeo.

O TikTok levou a distribuição algorítmica ainda mais longe: sequer precisamos escolher previamente quem acompanhar para receber uma sucessão interminável de conteúdos selecionados para nós.

Em troca dessa extraordinária conveniência, porém, abrimos mão progressivamente do controle.

A internet passou da descentralização à concentração.

E aconteceu algo ainda mais profundo.

Deixamos progressivamente de procurar conteúdo para permitir que sistemas decidissem qual conteúdo deveria nos encontrar.

 

O blog deixou de ser o centro da conversa

É nesse sentido que podemos falar na “queda” dos blogs.

Eles não desapareceram.

Perderam sua centralidade cultural.

A conversa que antes acontecia entre posts, comentários e links migrou para redes sociais, plataformas de vídeo, fóruns e aplicativos de mensagens.

Até a palavra mudou de significado.

Muitas empresas atualmente chamam de “blog” simplesmente a seção de artigos de seus sites, enquanto pessoas que fazem algo bastante parecido com aquilo que os antigos blogueiros faziam preferem ser chamadas de “criadores de conteúdo”.

Curiosamente, a tecnologia sobreviveu melhor do que a identidade cultural do blogueiro.

O WordPress, nascido como ferramenta de publicação de blogs, transformou-se em um sistema capaz de sustentar jornais, lojas virtuais, sites empresariais, portais e inúmeros outros projetos.

De certa maneira, o blog não morreu.

Ele foi absorvido pela própria Web.

 

O que ainda pertence a você?

Talvez essa seja a pergunta mais importante para quem produz conteúdo hoje.

Imagine alguém que durante dez anos construiu sua presença exclusivamente dentro de uma rede social.

Milhares de publicações.

Centenas de milhares de seguidores.

Uma marca conhecida.

Uma comunidade.

Quanto disso realmente pertence a essa pessoa?

Se amanhã a plataforma mudar radicalmente seu algoritmo, ela não pode simplesmente levar seus seguidores para outra rede. Se determinado formato deixar de ser privilegiado, anos de experiência podem perder valor rapidamente. Se a empresa desaparecer, mudar de estratégia ou encerrar sua conta, parte considerável daquela presença digital pode desaparecer junto.

O blogueiro também depende de terceiros, evidentemente.

Mas existe uma diferença fundamental.

Ele pode mudar de empresa de hospedagem e continuar no mesmo endereço.

Pode trocar WordPress por outro sistema.

Pode exportar seus textos.

Pode fazer backups.

Pode manter online um artigo escrito há quinze anos e fazer com que alguém o encontre hoje.

Isso não significa independência absoluta.

Significa um grau muito maior de soberania digital.

 

Um post envelhece de maneira diferente

Existe ainda outra diferença que só se torna evidente com o passar dos anos.

Um post numa rede social nasce dentro de um fluxo.

Ele aparece, recebe atenção durante algumas horas ou dias e começa a descer por uma linha do tempo que nunca para.

Um artigo publicado em um blog nasce dentro de um acervo.

Pode ser encontrado por mecanismos de busca anos depois. Pode receber novos links. Pode ser atualizado. Pode remeter a textos anteriores. Pode tornar-se parte de uma sequência de ideias produzidas ao longo de décadas.

A rede social privilegia o agora.

O blog consegue construir memória.

E memória é uma forma de patrimônio.

 

Então chegou a inteligência artificial

Quando parecia que a disputa entre blogs e redes sociais já estava resolvida, surgiu uma transformação potencialmente ainda mais profunda.

Durante muitos anos, quem publicava um site aceitava uma espécie de pacto informal com os mecanismos de busca.

O buscador indexava sua página.

O usuário fazia uma pergunta.

O buscador apresentava links.

O usuário clicava.

O site recebia a visita.

Essa relação nunca foi perfeitamente equilibrada, mas havia uma troca bastante compreensível.

A inteligência artificial começa a modificar esse pacto.

Hoje, mecanismos de busca e assistentes de IA são cada vez mais capazes de consultar inúmeras fontes, sintetizar informações e entregar diretamente uma resposta ao usuário.

O intermediário deixa de ser apenas a estrada.

Ele começa a se transformar também no destino.

 

A segunda expropriação da audiência

Na primeira grande transformação, entregamos boa parte de nossa relação com os leitores às redes sociais.

Agora podemos estar diante de uma segunda transformação: entregar também aos intermediários de inteligência artificial parte da descoberta e do consumo da informação.

E aqui surge um paradoxo.

Blogs, jornais, fóruns, enciclopédias, sites especializados e milhões de páginas independentes passaram décadas construindo o imenso patrimônio informacional da Web.

É justamente esse ecossistema que tornou possível encontrar respostas para praticamente qualquer assunto.

Agora sistemas conseguem localizar, comparar, resumir e reapresentar uma parcela desse conhecimento sem que o usuário necessariamente visite quem originalmente o publicou.

Isso nos leva a uma pergunta que ainda está longe de ser respondida:

se cada vez menos pessoas precisarem visitar quem produz a informação, quem continuará tendo incentivo para produzi-la?

O problema deixou de ser apenas quem controla a distribuição.

Passou a envolver também quem captura o valor do conhecimento publicado.

 

Paradoxalmente, o endereço próprio volta a fazer sentido

Pode parecer contraditório afirmar que possuir um site se tornou importante justamente quando conquistar visitantes está ficando mais difícil.

Mas talvez estejamos confundindo novamente audiência com patrimônio.

Uma rede social pode proporcionar uma audiência imensamente maior do que um blog.

Isso não significa que ela substitua aquilo que o blog oferece.

O blog é sua biblioteca.

A rede social é a praça onde você encontra pessoas.

Uma coisa não precisa eliminar a outra.

O problema começa quando transferimos toda a biblioteca para uma praça que não nos pertence.

 

A resistência não significa abandonar as redes

Defender a importância dos blogs não exige uma retirada romântica das plataformas.

Seria pouco realista e, provavelmente, contraproducente.

Redes sociais, mecanismos de busca, vídeos, podcasts, newsletters e inteligência artificial fazem parte do ecossistema contemporâneo de informação.

A questão é outra:

qual deles deve ser a casa e quais devem ser as estradas?

Talvez uma estratégia mais inteligente seja utilizar as plataformas como meios de distribuição sem confundi-las com nossa propriedade principal.

O conteúdo que merece permanecer fica em casa.

As plataformas ajudam a levá-lo até as pessoas.

A diferença parece pequena.

Não é.

Em vez de construir toda a nossa existência digital dentro de um feudo e torcer para que seu senhor continue nos permitindo acesso à terra, mantemos nosso próprio endereço e usamos os grandes territórios digitais para circular.

 

A resistência dos blogs

O BlogDay nasceu em 2005 celebrando uma internet em que blogueiros recomendavam outros blogueiros.

A internet que produziu aquela comemoração mudou profundamente.

Mas talvez a ideia existente por trás dela seja hoje ainda mais relevante.

Uma Web onde pessoas e pequenas organizações possam possuir seus próprios espaços.

Onde textos não precisem desaparecer porque deixaram de agradar ao algoritmo daquela semana.

Onde arquivos possam atravessar décadas.

Onde alguém possa publicar hoje e ainda ser encontrado muitos anos depois.

Onde um link possa levar diretamente de uma pessoa para outra sem depender necessariamente da decisão de uma plataforma intermediária.

Os blogs provavelmente nunca recuperarão o lugar que tiveram no início deste século.

Nem precisam.

Sua resistência pode significar algo mais importante do que voltar a ser moda.

Depois de anos construindo casas, cultivando audiências e produzindo riqueza digital nas terras dos grandes senhores da tecnologia, talvez estejamos reaprendendo uma velha lição da Web:

é bom ter um endereço para chamar de seu.

E talvez essa seja, afinal, a razão pela qual os blogs ainda importam.

 

 

Fontes e referências

  • IA, buscas e queda dos cliques: pesquisa do Pew constatou que, em buscas observadas em 2025, usuários clicaram em resultados tradicionais em 8% das páginas com resumo de IA, contra 15% quando o resumo não aparecia; links presentes no próprio resumo receberam cliques em apenas 1% das visitas.
    Pew Research Center — Google AI summaries and clicks
  • O preço de ser vassalo nos Feudos Digitais
    https://www.instagram.com/p/DYcNQ4IFefs/
    https://youtu.be/i4KDoWJf3Ks
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