Eu Contenho Multidões - A Beleza da Complexidade Humana

Eu Contenho Multidões: A Beleza da Complexidade Humana

Cinema e TV Comportamento

 

 

Você já se pegou olhando para quem era dez ou vinte anos atrás e pensando: “Como eu pude pensar daquela maneira?”

Ou talvez tenha percebido algo ainda mais estranho: certas versões antigas de você desapareceram, mas não completamente. Continuam presentes em lembranças, hábitos, medos, músicas, lugares, pessoas e decisões que ajudaram a construir quem você é hoje.

Somos ensinados a pensar na identidade como uma coisa relativamente simples: eu sou isto. Tenho esta profissão, estas opiniões, estes gostos, estes valores, esta personalidade.

Mas talvez sejamos muito maiores do que qualquer definição.

Em 1855, Walt Whitman colocou essa ideia em palavras em Canção de Mim Mesmo, poema que integra Folhas de Relva. Diante da possibilidade de estar sendo contraditório, Whitman não tenta se justificar. Ele simplesmente aceita a contradição:

“Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou grande, contenho multidões.”

Quase 170 anos depois, essa mesma ideia tornou-se um dos grandes eixos de A Vida de Chuck (The Life of Chuck), filme escrito e dirigido por Mike Flanagan a partir da obra de Stephen King. Não por acaso, “I Contain Multitudes” é o título de um dos atos da história, e Whitman aparece explicitamente no filme.

Whitman diz que contemos multidões.

A Vida de Chuck pergunta algo ainda mais inquietante:

O que exatamente existe dentro dessas multidões?

 

Você é maior do que a pessoa que vê no espelho

Quando olhamos para alguém, enxergamos apenas sua manifestação presente.

Um contador. Uma professora. Um aposentado. Uma dona de casa. Um empresário. Um homem de meia-idade sentado sozinho em um restaurante.

São fotografias.

Mas uma pessoa não é uma fotografia.

É um filme inteiro.

Dentro daquele homem aparentemente comum pode existir o menino que teve medo de entrar em determinado quarto, o adolescente que se apaixonou, o jovem que dançou como se não houvesse amanhã, o adulto que perdeu alguém, o profissional que escolheu uma carreira diferente daquela com que sonhava e o homem que ainda se lembra de uma música ouvida quarenta anos antes.

Todas essas pessoas são ele.

E nenhuma delas, isoladamente, é ele.

Essa é uma das ideias mais bonitas de A Vida de Chuck. O personagem interpretado na fase adulta por Tom Hiddleston é deliberadamente comum. Chuck não é um super-herói nem uma figura histórica destinada a mudar o mundo. É um contador.

Mas descobrimos pouco a pouco que dizer “Chuck é um contador” explica Chuck tanto quanto dizer “o oceano é água” explica o oceano.

É verdade.

Só que deixa quase tudo de fora.

 

O universo que existe dentro de uma pessoa

Em um dos momentos fundamentais do filme, o jovem Chuck entra em contato com Canção de Mim Mesmo na escola.

Ele quer entender o que Whitman quis dizer ao afirmar que contém multidões.

A explicação de sua professora amplia extraordinariamente o significado da frase. Conforme vivemos, acumulamos pessoas, rostos, lugares, acontecimentos, objetos, experiências e até coisas imaginadas. Aos poucos, construímos dentro da mente algo semelhante a um universo.

Essa ideia fornece a chave para compreender o filme.

E talvez também para compreender a nós mesmos.

Pense em tudo o que existe dentro de você neste instante.

As casas onde morou.

As escolas onde estudou.

Os rostos de pessoas que já morreram.

As pessoas que amou.

As que detestou.

Os amigos que desapareceram de sua vida.

Aquela rua da infância que talvez nem exista mais.

Uma música capaz de transportá-lo instantaneamente para outra época.

O cheiro da casa dos seus avós.

Uma humilhação que ninguém mais lembra, mas que você nunca esqueceu.

Uma frase dita por alguém há trinta anos.

Um sonho abandonado.

Uma vitória que mudou sua vida.

Uma decisão da qual se arrepende.

E milhares de pessoas que cruzaram seu caminho por segundos e provavelmente nunca mais aparecerão.

Onde está tudo isso agora?

Em alguma medida, dentro de você.

A descrição oficial da obra de Stephen King chega justamente a essa ideia ao apresentar A Vida de Chuck como uma celebração da humanidade, do mistério, da alegria e das “multidões contidas em todos nós”.

 

O peso de acreditar que precisamos ser uma coisa só

Existe, entretanto, uma pressão social para fazer exatamente o contrário.

Precisamos nos definir.

Qual é sua profissão?

Qual é sua ideologia?

Você é introvertido ou extrovertido?

Racional ou emocional?

Conservador ou revolucionário?

Prático ou sonhador?

Gostamos de classificações porque elas simplificam o mundo.

O problema começa quando confundimos classificação com identidade.

Um homem pode ser extremamente racional em seu trabalho e completamente emocional diante dos filhos. Pode gostar de matemática e poesia. Pode desejar estabilidade profissional e, ao mesmo tempo, sentir uma enorme vontade de abandonar tudo e conhecer o mundo.

Pode ser conservador em determinadas dimensões da vida e radicalmente inovador em outras.

Isso não necessariamente significa falsidade.

Significa que seres humanos são complexos.

Whitman percebeu algo extraordinariamente moderno: a contradição não destrói necessariamente a identidade; às vezes, ela faz parte dela.

 

Todas as pessoas que você já foi

Há outra maneira de entender nossas multidões.

Você não contém apenas diferentes características.

Você contém diferentes versões de si mesmo.

Existe uma tendência de imaginar nossa vida como uma linha contínua, na qual somos essencialmente a mesma pessoa envelhecendo.

Mas pense seriamente sobre isso.

Você ainda é a pessoa que era aos 15 anos?

Provavelmente não.

Aos 25?

Também não.

Suas opiniões mudaram. Algumas certezas desapareceram. Pessoas entraram e saíram. Experiências alteraram seus valores. Talvez aquilo que parecia indispensável tenha se tornado irrelevante.

Mas aquele adolescente não desapareceu completamente.

Ele está presente em você.

O mesmo acontece com a criança que você foi.

E com todas as versões intermediárias.

Nesse sentido, amadurecer não significa substituir uma pessoa por outra. Significa carregar cada vez mais pessoas dentro de nós.

Quanto mais vivemos, maior fica nossa multidão.

 

Mudar de ideia não significa necessariamente ser incoerente

Essa perspectiva também muda nossa relação com a mudança.

Hoje existe uma espécie de arquivo permanente de nossas opiniões. Redes sociais conseguem recuperar algo que alguém escreveu quinze anos atrás e confrontá-lo com aquilo que pensa hoje.

Existe uma pergunta implícita:

“Como você dizia aquilo antes e agora diz isto?”

Em alguns casos, a pergunta é legítima. Pessoas realmente podem agir por oportunismo.

Mas existe outra possibilidade muito mais humana:

a pessoa mudou.

Aprendeu alguma coisa.

Errou.

Viveu.

Reconsiderou.

Descobriu informações que não possuía.

Teve experiências capazes de alterar sua visão do mundo.

Exigir que alguém pense aos 50 exatamente como pensava aos 20 não é exigir coerência.

É exigir estagnação.

Whitman não foge da contradição. Ele a incorpora.

“Pois bem, eu me contradigo.”

Há enorme liberdade nessa resposta.

 

A dança de Chuck e aquilo que deixamos adormecido

A Vida de Chuck transforma essa filosofia em algo concreto através da dança.

Chuck seguiu uma vida aparentemente convencional. Tornou-se contador, seguindo a influência do avô e sua relação com a matemática. Mas a dança, aprendida ainda jovem sob influência da avó, continuou existindo dentro dele.

Ela não desapareceu porque ele escolheu outra profissão.

Continuou sendo Chuck.

Essa talvez seja uma das melhores representações das “multidões” de Whitman.

Quantas coisas existem dentro de nós que simplesmente deixamos de manifestar?

O músico que nunca mais tocou.

O escritor que parou de escrever.

O atleta que abandonou o esporte.

O sujeito aventureiro soterrado por décadas de rotina.

A pessoa que dançava sem vergonha antes de começar a se preocupar com aquilo que os outros pensariam.

Esses personagens podem permanecer silenciosos durante anos.

Até que alguma coisa os desperte.

E, subitamente, reconhecemos uma pessoa que julgávamos desaparecida:

nós mesmos.

 

A vida não precisa ser coerente como um currículo

Talvez um dos erros da vida adulta seja começar a enxergar nossa existência como um currículo.

Tudo precisa fazer sentido.

Estudei isso porque queria aquilo. Trabalhei ali para chegar aqui. Fiz determinada escolha porque fazia parte de um plano.

Só que a vida real raramente funciona dessa maneira.

Há desvios.

Acidentes.

Paixões inesperadas.

Fracassos.

Mudanças de opinião.

Pessoas que aparecem sem aviso e modificam completamente nosso caminho.

Planos abandonados.

Interesses aparentemente inúteis que, décadas depois, ganham significado.

A Vida de Chuck encontra beleza justamente nesses fragmentos.

A vida não precisa formar uma linha reta para possuir sentido.

Talvez seu significado esteja precisamente na soma de coisas que, vistas separadamente, pareciam não combinar.

 

Quando uma pessoa morre, o que desaparece?

É aqui que a ideia de Whitman ganha uma dimensão muito mais profunda no filme.

Se dentro de cada pessoa existe um universo feito de lembranças, pessoas, lugares, experiências e imaginação, então a morte de alguém representa algo muito maior do que a interrupção de suas funções biológicas.

Um mundo desaparece.

Desaparece a versão particular que aquela pessoa guardava de outras pessoas.

Desaparecem lembranças que talvez ninguém mais possuísse.

Desaparecem detalhes.

Cheiros.

Vozes.

Associações.

Pequenos acontecimentos jamais registrados.

Milhares de coisas que existiam apenas naquela consciência.

É uma ideia melancólica.

Mas existe também algo profundamente belo nela.

Porque significa que uma vida aparentemente comum jamais é realmente pequena.

Não precisamos mudar a história da humanidade para possuir um universo.

Não precisamos ser famosos.

Não precisamos construir impérios.

Não precisamos ter milhões de seguidores.

O simples ato de viver durante décadas, conhecer pessoas, amar, sofrer, observar, lembrar, aprender e imaginar já constrói alguma coisa extraordinariamente complexa dentro de nós.

 

Como libertar suas próprias multidões

Aceitar essa complexidade não significa viver sem princípios ou transformar qualquer contradição em virtude.

Significa apenas abandonar a obrigação de reduzir a própria existência a uma definição simples.

Podemos começar permitindo que antigos interesses reapareçam. Admitindo que mudamos de opinião. Experimentando algo que aparentemente “não combina” conosco. Reconhecendo que determinadas versões de nós ficaram no passado sem precisar desprezá-las.

Também podemos olhar para os outros dessa maneira.

Talvez aquela pessoa que resumimos a uma profissão, uma opinião ou um comportamento também possua um universo que desconhecemos.

Esse pensamento exige uma forma rara de humildade:

ninguém cabe completamente na impressão que fazemos dele.

 

Você contém um mundo que ninguém mais possui

Whitman escreveu sobre suas multidões no século XIX.

Stephen King recuperou essa ideia e construiu ao redor dela uma história sobre a existência humana.

Mike Flanagan transformou essa história em imagens.

E os três acabam apontando para a mesma direção:

somos muito maiores por dentro do que parecemos por fora.

Você não é apenas aquilo que faz hoje.

É também aquilo que fez.

Aquilo que abandonou.

Aquilo que aprendeu.

Aquilo em que deixou de acreditar.

As pessoas que amou.

As pessoas que perdeu.

Os lugares onde esteve.

As músicas que ainda consegue ouvir mentalmente.

Os erros que gostaria de apagar.

As decisões que mudaram tudo.

A criança que você foi.

O jovem que imaginava outro futuro.

E a pessoa que ainda poderá se tornar.

Talvez seja por isso que a frase de Walt Whitman continua tão poderosa quase dois séculos depois.

Não precisamos resolver todas as nossas contradições.

Algumas delas são justamente a prova de que vivemos.

Quando olhar para trás e encontrar versões de você que já não reconhece completamente, não tenha tanta pressa em rejeitá-las.

Elas também fizeram parte da construção deste universo.

Você não é um personagem de uma frase só.

Você é uma história inteira.

E, enquanto essa história existir, haverá dentro dela cidades, pessoas, perdas, afetos, erros, descobertas, músicas, medos, sonhos e incontáveis versões de quem você já foi.

Whitman encontrou duas palavras extraordinárias para tudo isso:

“Contenho multidões.” Cada uma dessas multidões forma um universo — e nenhum outro ser humano terá exatamente o mesmo.

 

 
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