Cofrinho Mercado Pago:120% do CDI sob suspeita

Cofrinho Mercado Pago: 120% do CDI sob suspeita

Defesa do Consumidor na Era Digital

 
 

Promessa de alta rentabilidade, rendimentos que não consegui reproduzir pela Calculadora do Banco Central, informações contraditórias sobre IOF e uma inteligência artificial que admite não saber se o rendimento exibido já é líquido: foi por isso que resgatei todo o meu dinheiro

 

Quando o assunto é dinheiro, costumo ser bastante objetivo.

Se uma instituição financeira anuncia que determinado investimento rende 120% do CDI, quero saber duas coisas:

quanto deveria render e quanto efetivamente rendeu.

Foi isso que tentei descobrir ao acompanhar meu Cofrinho do Mercado Pago.

O resultado da experiência foi tão desconfortável que, mesmo diante de uma taxa aparentemente muito atraente, resgatei 100% da aplicação e transferi o dinheiro para outra instituição, aceitando conscientemente uma remuneração menor.

Não porque tenha conseguido provar que o Mercado Pago não paga os 120% do CDI.

Mas porque não consegui comprovar que paga.

E, para mim, isso é gravíssimo.

 

A promessa é de 120% do CDI

O Mercado Pago divulga os Cofrinhos como uma forma de fazer o dinheiro render automaticamente, com remuneração que pode chegar a 120% do CDI, de acordo com as condições aplicáveis.

Mercado Pago — Como funcionam os Cofrinhos

A proposta é extremamente atraente.

Afinal, se duas instituições oferecem investimentos semelhantes e uma promete 120% do CDI enquanto outra oferece 102%, a primeira parece, à primeira vista, obviamente mais interessante.

Mas há uma condição indispensável para essa comparação:

é preciso conseguir verificar se os 120% estão efetivamente sendo pagos.

Foi justamente aí que começaram os problemas.

 

O rendimento diário começou a me incomodar

Comecei meu Cofrinho em julho de 2026 e fiz diversos aportes.

Passei a acompanhar os rendimentos diariamente.

Em determinado momento, registrei:

  • rendimento de R$ 1,37 em um dia;
  • R$ 1,60 no seguinte;
  • depois, R$ 3,76;
  • R$ 3,77;
  • e finalmente R$ 3,70.

O que me alarmou não foi o valor absoluto.

Foi a queda do rendimento diário.

De R$ 3,77 para R$ 3,70.

E havia uma circunstância especialmente importante:

depois do último aporte, não fiz mais depósitos nem saques.

Portanto, eu tinha condições de acompanhar o comportamento da aplicação sem que novas movimentações alterassem a base de comparação.

Foi então que resolvi conferir a taxa por conta própria.

 

A Calculadora do Banco Central apresentou a mesma taxa

Utilizei a ferramenta oficial do Banco Central para correção pelo CDI.

Calculadora do Cidadão — Correção pelo CDI

Fiz a simulação para três períodos consecutivos:

03/08 → 04/08

04/08 → 05/08

05/08 → 06/08

Nos três períodos, a taxa de remuneração apresentada foi exatamente a mesma:

0,063037% ao dia

Essa taxa já considerava os 120% do CDI utilizados na minha simulação.

E aqui está o ponto que considero fundamental.

Se:

  • não houve novos depósitos;
  • não houve saques;
  • o saldo estava crescendo;
  • a taxa diária utilizada na minha referência permaneceu constante;
  • e os rendimentos são incorporados ao saldo;

eu esperava que o rendimento diário permanecesse, no mínimo, aproximadamente constante.

Mais do que isso: considerando os juros compostos, a tendência seria de um ligeiro aumento do rendimento diário.

Mas aconteceu o contrário.

O rendimento caiu de R$ 3,77 para R$ 3,70.

Eu precisava saber por quê.

E não consegui descobrir.

 

Atenção: eu não estou afirmando que o Mercado Pago errou

Aqui faço questão de ser absolutamente preciso.

Não tenho elementos para afirmar que o Mercado Pago tenha descumprido a promessa de 120% do CDI.

O que tenho é algo diferente:

não consegui comprovar que a promessa estava sendo cumprida.

E essa diferença é enorme.

Eu tinha uma taxa anunciada.

Tinha os rendimentos efetivamente lançados.

Tinha os dados da minha aplicação.

Tinha a Calculadora do Banco Central.

E, mesmo assim, não consegui reproduzir satisfatoriamente os números apresentados pelo Mercado Pago nem explicar a queda do rendimento diário.

Isso não é uma acusação de fraude.

É uma crítica à verificabilidade daquilo que está sendo oferecido ao cliente.

E, para um produto financeiro, considero isso extremamente sério.

 

Não estou exigindo uma “memória de cálculo”

É importante esclarecer isso porque alguém poderia argumentar que outras instituições também não mostram todas as operações internas utilizadas para calcular um rendimento.

Concordo.

Nas outras instituições onde mantenho investimentos também não tenho uma memória de cálculo detalhada.

Mas tenho algo que, na prática, é suficiente:

os dados básicos da aplicação.

Consigo saber a taxa contratada, acompanhar o rendimento de um dia, de um mês, de um ano e comparar os resultados com a Calculadora do Banco Central.

E, nas minhas outras aplicações, os números batem.

Foi justamente por isso que estranhei tanto o comportamento do Cofrinho.

Não estava utilizando um método diferente.

Não estava inventando uma fórmula própria.

Estava fazendo a mesma conferência que faço nos demais investimentos.

E, desta vez, a conta não fechou de maneira que eu pudesse compreender.

Essa foi a verdadeira origem da minha desconfiança.

 

E então veio uma segunda bomba: o IOF

Enquanto tentava entender os rendimentos, encontrei uma informação ainda mais preocupante.

Em uma reclamação publicada no Reclame Aqui em 15 de abril de 2026, um consumidor questionava justamente o rendimento do Cofrinho.

 

Na resposta, o Mercado Pago afirmou que os 120% do CDI eram aplicados sobre o rendimento bruto e mencionou a cobrança de IOF nos primeiros 30 dias, além do Imposto de Renda.

Reclame Aqui — resposta do Mercado Pago sobre o rendimento do Cofrinho

Até aí, a explicação poderia parecer razoável.

O problema é que encontrei outra informação no próprio Mercado Pago.

Em publicação atualmente disponível em seu site, a empresa afirma que os Cofrinhos são isentos de IOF.

Mercado Pago — Impostos sobre os rendimentos

 

Então temos uma pergunta absolutamente legítima:

Afinal, há ou não há IOF no Cofrinho?

Não estou dizendo que a resposta seja necessariamente “sim”.

Também não estou dizendo que seja necessariamente “não”.

 

Estou dizendo que o consumidor encontra informações antagônicas em fontes relacionadas ao próprio Mercado Pago.

E isso é inaceitável quando estamos falando de tributação de um investimento.

 

Mas a IA do próprio Mercado Pago tornou tudo ainda mais grave

Como se não bastasse a divergência entre as informações publicadas, resolvi perguntar diretamente à inteligência artificial disponível no aplicativo do Mercado Pago.

Perguntei se os rendimentos lançados eram líquidos.

A resposta foi:

“Nos dados disponíveis, é confirmado que os Cofrinhos não têm cobrança de IOF. Não há informação suficiente para confirmar se os créditos de rendimento exibidos já consideram eventual Imposto de Renda.”

 

Cofrinho Mercado Pago: mensagem da IA do app
Resposta da IA do app do Mercado Pago: “Nos dados disponíveis, é confirmado que os Cofrinhos não têm cobrança de IOF. Não há informação suficiente para confirmar se os créditos de rendimento exibidos já consideram eventual Imposto de Renda”.

 

 

Vamos pensar no que isso significa.

Estamos falando de um produto financeiro que apresenta ao cliente um determinado rendimento.

E, quando pergunto à inteligência artificial do próprio aplicativo se aquele rendimento já considera o Imposto de Renda, a resposta é:

“Não há informação suficiente para confirmar.”

Ora, bolas!

Se nem a própria IA do aplicativo consegue dizer se o rendimento que aparece na tela é líquido, como o cliente deve verificar o resultado do seu investimento?

Isso não é uma questão secundária.

É uma informação básica.

 

O próprio Mercado Pago diz que há “total transparência”

Há uma ironia difícil de ignorar.

O Mercado Pago afirma, em sua comunicação oficial sobre os Cofrinhos, que o cliente tem “total transparência para saber o seu total líquido, ou seja, já com impostos descontados.”

Mercado Pago — Como funcionam os Cofrinhos

Mas a IA do próprio aplicativo me informou que não havia informação suficiente para confirmar se os créditos de rendimento exibidos já consideravam o Imposto de Renda.

Como conciliar essas duas coisas?

É exatamente essa pergunta que o Mercado Pago deveria responder.

 

E há uma ironia ainda maior

Se os Cofrinhos são realmente isentos de IOF desde o primeiro dia, como informa atualmente o Mercado Pago, a proposta se torna matematicamente ainda mais interessante.

Imagine uma aplicação que efetivamente entregue 120% do CDI, sem IOF nos primeiros 30 dias e com apenas o Imposto de Renda correspondente.

Seria uma alternativa extremamente competitiva para quem busca liquidez e rentabilidade.

Quanto mais atraente é o produto, portanto, mais importante é que seus cálculos sejam transparentes.

Não estou criticando o Cofrinho porque ele seria pouco rentável.

Estou criticando o fato de que, para mim, não foi possível comprovar a rentabilidade prometida utilizando os dados que o próprio produto disponibiliza.

 

Foi por isso que tirei todo o dinheiro

Depois de acompanhar os números, fazer as simulações e pesquisar as informações disponíveis, tomei uma decisão.

Resgatei 100% da aplicação.

E transferi os recursos para o C6 Bank.

Aqui está talvez o detalhe mais revelador de toda a história:

O CDB escolhido rende 102% do CDI.

Ou seja:

saí de 120% para 102%.

Não porque 102% seja matematicamente superior a 120%.

Obviamente não é.

Saí porque passei a valorizar mais a possibilidade de conferir o investimento do que os 18 pontos percentuais adicionais sobre o CDI.

 

Preferi ganhar menos a continuar sem saber

Talvez alguém considere essa decisão irracional.

Não considero.

Um investimento de renda fixa deveria me proporcionar justamente aquilo que o nome sugere:

previsibilidade.

Eu não quero passar dias tentando descobrir por que um rendimento caiu de R$ 3,77 para R$ 3,70.

Não quero comparar respostas contraditórias sobre IOF.

Não quero perguntar à IA do próprio aplicativo se o rendimento apresentado já considera o Imposto de Renda e receber como resposta que não há informação suficiente para saber.

E não quero depender da hipótese de que “provavelmente o sistema está calculando corretamente”.

Quero poder conferir.

É simples assim.

 

O problema não é apenas o rendimento. É a confiança.

Minha experiência não permite concluir que o Mercado Pago esteja deliberadamente enganando seus clientes.

Também não permite concluir que os 120% do CDI não estejam sendo pagos.

Mas permite afirmar algo que considero suficientemente grave:

Eu não consegui verificar que estavam sendo pagos.

E encontrei, durante essa tentativa de verificação:

  • uma queda do rendimento diário que não consegui explicar;
  • uma taxa diária constante na minha simulação do Banco Central;
  • informações conflitantes sobre IOF;
  • uma IA do próprio aplicativo incapaz de confirmar se o rendimento exibido já considerava o IR;
  • e uma comunicação oficial que, ao mesmo tempo, fala em “total transparência”.

Para mim, isso foi suficiente.

Perdi a confiança no produto.

E, quando perdi a confiança, retirei o dinheiro.

 

Mercado Pago: quanto maior a promessa, maior deveria ser a transparência

Não estou dizendo ao leitor:

“Não invista no Cofrinho.”

Cada pessoa deve analisar as condições vigentes, sua necessidade de liquidez, tributação e demais características do produto.

Estou dizendo outra coisa:

Não confie apenas no percentual do CDI anunciado. Tente conferir os números.

E, se você encontrar uma divergência que não consegue explicar, procure respostas.

Foi exatamente o que fiz.

E as respostas que encontrei não foram suficientes para me convencer a permanecer.

O Mercado Pago pode ter um excelente produto financeiro.

Pode até estar pagando corretamente os 120% do CDI.

Mas, se o cliente não consegue verificar isso de maneira clara e se encontra informações contraditórias nos próprios canais da empresa, existe um problema de transparência que precisa ser enfrentado.

No meu caso, esse problema teve uma consequência concreta:

preferi 102% do CDI com transparência a 120% do CDI sem conseguir comprovar o que estava recebendo.

E não considero que tenha perdido dinheiro por isso.

Considero que comprei tranquilidade.

 

 

Fontes

 

 
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