Irã em Chamas e o Silêncio Seletivo da Direita Brasileira

Irã em Chamas e o Silêncio Seletivo da Direita Brasileira

Opinião

 

 

Repressão sangrenta expõe incoerências morais e políticas

Nos últimos dias de janeiro de 2026, o Irã mergulhou em uma das mais violentas ondas de repressão de sua história recente. Estimativas de organizações independentes como HRANA e Iran Human Rights apontam para milhares de mortos, variando entre 5 mil e mais de 16 mil, além de execuções sumárias, mutilações oculares deliberadas e necrotérios em colapso.

O que começou como protesto contra a crise econômica rapidamente se transformou em um grito popular contra a teocracia de Ali Khamenei, com palavras de ordem claras: “Morte ao ditador”. O regime respondeu com balas, forcas e censura.

Enquanto o povo iraniano sangra, o Ocidente debate — e o Brasil, em especial, revela contradições incômodas.

 

Trump prometeu ajuda ao Irã? O que mudou depois?

Com Donald Trump novamente na Casa Branca, a reação inicial foi retórica forte:

  • Incentivo público aos manifestantes
  • Promessa de que “a ajuda está a caminho”
  • Ameaça de intervenção militar “rápida e decisiva”
  • Movimentação de frotas navais
  • Tarifas de 25% contra países que negociassem com Teerã

A mensagem parecia clara: o regime iraniano pagaria caro.

Mas veio o recuo

Dias depois, o tom mudou:

  • Trump agradeceu ao Irã por supostamente suspender execuções
  • Planos militares mais agressivos foram engavetados
  • A prioridade passou a ser o discurso do America First, sem nova guerra
  • A repressão continuou — e se aprofundou

Na prática, o regime sobreviveu, e os manifestantes ficaram sem proteção externa efetiva.

 

A direita brasileira falou sobre isso?

Aqui começa o ponto mais sensível.

Perfis bolsonaristas: silêncio absoluto

Figuras influentes do bolsonarismo nas redes — como Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro, Kim Paim e Carlos Jordynão publicaram uma única crítica relevante sobre:

  • O recuo de Trump
  • As promessas não cumpridas
  • O abandono dos manifestantes iranianos

Zero cobrança. Zero questionamento.

E os veículos conservadores?

Portais como Revista Oeste e Gazeta do Povo cobriram os fatos, mas com um enquadramento seletivo:

  • Destaque correto para a brutalidade do regime
  • Ênfase nos milhares de mortos
  • Denúncia da censura e do uso do Starlink

Porém, Trump aparece sempre em tom neutro ou positivo:

  • “Ameaçou o regime”
  • “Agradeceu pela suspensão de execuções”
  • “Manteve indefinição estratégica”

A hesitação não vira pauta central.

 

Por que a direita evita criticar Trump?

A resposta é desconfortável, mas simples: lealdade ideológica.

Trump se tornou uma figura sagrada para o bolsonarismo brasileiro — símbolo de:

  • Nacionalismo
  • Anticomunismo
  • Combate ao globalismo

Criticá-lo significaria arriscar fissuras na base. Assim, o massacre iraniano vira instrumento de disputa interna, não um tema de princípios.

 

E o governo Lula? A crítica é válida?

Sim — e necessária.

O Itamaraty divulgou notas protocolares:

  • Lamentando mortes
  • Defendendo a “soberania iraniana”
  • Alfinetando Trump

A crítica à hipocrisia seletiva da esquerda brasileira é justa.
O problema surge quando a direita pratica o mesmo vício.

 

Existem exceções na direita?

Poucas, mas existem.

A jornalista Fernanda Salles (@reportersalles) denunciou:

  • O massacre em detalhes
  • A repressão sistemática
  • O recuo de Trump após inflamar expectativas

Ela prova que é possível ser anticomunista, conservador e coerente — sem rabo preso.

Mas é exceção. A regra segue sendo o silêncio conveniente.

 

Direitos humanos dependem de alinhamento político?

Essa é a pergunta central.

Se:

  • O regime de Khamenei é monstruoso (e é)
  • A repressão é inaceitável
  • A liberdade deve ser princípio absoluto

Então a cobrança precisa ser universal.

O silêncio seletivo enfraquece a credibilidade moral de quem se apresenta como defensor da liberdade.

 

Conclusão: coerência também é coragem

Enquanto o povo iraniano morre nas ruas, o debate político brasileiro segue refém da polarização local.

A direita brasileira cobra — com razão — coerência da esquerda.
Mas precisa olhar no espelho.

Coragem não é apenas denunciar ditaduras distantes.
É também questionar aliados quando eles hesitam, recuam ou abandonam quem acreditou em suas promessas.

Sem isso, a indignação vira discurso vazio — e a defesa da liberdade, apenas um slogan.

 

 

 
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