Quando o anúncio promete uma coisa e o checkout cobra outra
Quem compra na Shopee no Brasil provavelmente já viveu a mesma experiência:
o anúncio exibe frete baixo ou até “frete grátis a partir de R$ 10”, mas, ao adicionar o produto ao carrinho — ou avançar para o checkout — o valor do frete aumenta de forma inesperada.
Não se trata de erro isolado nem de exceção técnica.
É um padrão recorrente, amplamente relatado por consumidores, mas praticamente ignorado por portais de tecnologia, sites de defesa do consumidor e pela grande mídia brasileira.
Este artigo analisa o problema sob três perspectivas complementares:
- comportamental, examinando o design da experiência de compra;
- econômica, avaliando o frete como componente oculto do preço;
- jurídica, à luz do Código de Defesa do Consumidor (CDC).
Como o frete muda entre anúncio, carrinho e checkout
Na prática, o processo de compra costuma seguir um roteiro previsível.
No anúncio: a criação da expectativa
O consumidor se depara com mensagens como:
- “Frete grátis a partir de R$ 10”
- “Frete promocional”
- “Frete R$ 19,90”
Neste momento, forma-se a expectativa legítima do preço total da compra.
O frete não aparece como detalhe secundário, mas como fator decisivo para a escolha do produto.

No carrinho: a ruptura da promessa
Ao adicionar o produto ao carrinho, o mesmo item passa a exibir:
- frete mais caro;
- valor diferente do anunciado;
- ou uma condição nova, sem explicação clara.
A mudança ocorre após o clique, quando o consumidor já investiu tempo, atenção e intenção de compra.

No checkout: a consolidação do valor maior
No checkout, o frete majorado se mantém e costuma vir acompanhado de:
- mensagens genéricas sobre cupons;
- avisos de “limite excedido”;
- ou nenhuma justificativa objetiva.
Neste ponto, o consumidor enfrenta uma escolha simples e desconfortável:
aceitar pagar mais ou abandonar a compra.
A lógica comportamental por trás do frete “variável”
Do ponto de vista da psicologia do consumo, o fenômeno não é acidental.
Ele segue padrões clássicos de design persuasivo abusivo, conhecidos como dark patterns.
Ancoragem
O valor baixo do frete exibido no anúncio funciona como âncora mental.
Todo o restante da decisão gira em torno dessa referência inicial.
Comprometimento progressivo
Cada etapa cumprida — clique, leitura, carrinho — aumenta o custo psicológico da desistência.
Fricção tardia
O custo real surge apenas quando o consumidor já está emocionalmente comprometido com a compra.
Efeito prático:
Muitos consumidores concluem a compra mesmo pagando mais, não por concordarem com o valor, mas para evitar a sensação de perda de tempo.
O impacto econômico: frete como preço oculto
Embora o frete componha o preço final do produto, ele é tratado como variável instável e opaca.
Isso provoca:
- distorção na comparação entre anúncios;
- falsa percepção de vantagem econômica;
- perda de previsibilidade para o consumidor.
Na prática, o produto parece barato até o último clique — momento em que a decisão já está quase tomada.
O que diz o Código de Defesa do Consumidor
Sob a ótica jurídica, o problema é ainda mais grave.
Art. 6º, III — Direito à informação clara
O Código de Defesa do Consumidor garante ao consumidor o direito à informação adequada e clara sobre o preço, inclusive custos adicionais.
➡️ O frete integra o preço total.
Se ele muda sem transparência, a informação prestada é defeituosa.
Art. 30 — A oferta vincula o fornecedor
Toda informação ou publicidade suficientemente precisa obriga quem a veicula.
➡️ Se o anúncio apresenta determinado valor ou condição de frete, essa oferta vincula a plataforma e o vendedor.
Art. 37 — Publicidade enganosa por omissão
É considerada enganosa a publicidade que, mesmo verdadeira, induz o consumidor em erro por omissão de informação relevante.
➡️ Exibir “frete grátis” ou “frete promocional” sem deixar claro, de forma ostensiva, que:
- depende de cupom,
- possui teto de valor,
- pode não cobrir o frete real,
pode caracterizar publicidade enganosa por omissão, vedada pelo CDC.
“As regras estão nos cupons”: um argumento insuficiente
O argumento mais comum das plataformas é que as regras estão disponíveis para consulta.
Do ponto de vista jurídico, isso não encerra a questão.
O CDC exige que a informação seja:
- clara,
- destacada,
- compreensível de imediato.
Informação escondida não é informação válida.
Relatos de consumidores: o padrão documentado
O problema não é teórico nem isolado. Ele está amplamente documentado por consumidores brasileiros.
Relatos no Reclame Aqui (exemplos)
- Propaganda enganosa de frete
https://www.reclameaqui.com.br/shopee/propaganda-enganosa-de-frete - Frete anunciado com valor diferente no checkout
https://www.reclameaqui.com.br/shopee/frete-com-desconto-anunciado-nao-aplicado-no-checkout-e-suporte-nao-resolve/ - Valor da compra alterado após a finalização e divergência nas informações do chat
https://www.reclameaqui.com.br/shopee/valor-da-compra-alterado-apos-a-finalizacao-e-divergencia-nas-informacoes/ - Propaganda Enganosa Frete Grátis Shopee
https://www.reclameaqui.com.br/shopee/propaganda-enganosa-frete-gratis-shopee/ - Anúncio de frete grátis Shopee divergente do valor cobrado no carrinho https://www.reclameaqui.com.br/shopee/anuncio-de-frete-gratis-shopee-divergente-do-valor-cobrado-no-carrinho/
- Propaganda enganosa: Frete grátis não aplicado conforme anunciado https://www.reclameaqui.com.br/shopee/propaganda-enganosa-frete-gratis-nao-aplicado-conforme-anunciado/
Os relatos variam nos detalhes, mas reproduzem o mesmo padrão estrutural.
O silêncio da mídia e das autoridades
Apesar de:
- milhares de reclamações,
- repetição sistemática do problema,
- impacto econômico direto sobre o consumidor,
não há reportagens investigativas relevantes no Brasil sobre o tema.
O debate acaba reduzido a:
- tutoriais de “como usar cupom”;
- culpabilização do consumidor;
- normalização de práticas questionáveis.
Conclusão: não é erro, é arquitetura
Quando:
- o anúncio promete,
- o carrinho contradiz,
- o checkout confirma o aumento,
não estamos diante de falha pontual, mas de uma arquitetura de conversão baseada em confusão controlada.
O frete não muda por acaso.
Ele muda no momento mais conveniente para a plataforma.
A pergunta que permanece
Até que ponto isso é apenas marketing agressivo —
e quando passa a ser violação direta dos direitos do consumidor?
Nota editorial final
Este texto não acusa ilegalidade automática.
Ele aponta um padrão estrutural, documentado e recorrente, que merece escrutínio público, jurídico e regulatório.
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